Uma herança para a vida

Uma coisa que tenho ainda muito presente na minha memória é que eu nunca criei expectativas em relação às minhas bebés, isto é, eu não tinha a mínima noção de quanto tempo "deviam" dormir, mamar, ou estar acordadas. Elas viviam no meu colo, e a partir daí, eu era conduzida pelo meu instinto.

O facto de também eu ter sido amamentada, de ouvir a minha mãe contar que me amamentava por longos períodos de tempo, que me ia amamentar ao berçário numa das pausas do trabalho, uma imagem embora muito vaga que tenho de ver o meu irmão ao colo da minha mãe a mamar, ela própria já me confidenciou que se lembra de mamar - a minha mãe é a mais nova de 10 irmãos, foi a que mamou mais tempo, penso eu. Até ter sido mãe, eram estas as histórias que eu tinha mais presentes, e por isso, para mim, amamentar era uma certeza, não ter leite suficiente nunca me chegou a passar pela cabeça.
A informação que absorvi durante a minha primeira gravidez veio apenas reafirmar o que a minha intuição intrinsecamente já me dizia. E confesso, continuo a achar todo este universo que o ser humano é, em particular, a díade mãe e bebé, um fascínio que rebate qualquer cenário idílico de livros ou revistas. Não há nada mais único e real do que o vínculo que se cria até antes do bebé nascer e que prevalece pela vida fora. Que nos faz amar os nossos filhos como mais ninguém, conhecê-los, decifrar os sinais que nos transmitem, sentir dentro de nós quando algo não está bem sem precisar de um diagnóstico. E isso só se consegue assim, na intimidade, no contacto, no toque, no beijo, no deleito.

Quanto mais leio e estudo sobre o bebé, mais acredito que a premissa de que menos, é mais, encaixa perfeitamente quando se fala de um bebé.
Acho que preparar o ninho passa muito mais por nos munirmos de informação fidedigna, dedicarmos tempo ao bebé enquanto vai crescendo na barriga, do que nos perdermos - a nós e à carteira - em lojas de puericultura, para comprarmos todos os dispositivos que o mercado nos quer impingir, afastando-nos cada vez mais do nosso bebé, e daquilo para o qual ele está biologicamente preparado quando nasce e que não tem preço, ser amamentado, carregado ao colo, estar sempre junto da mãe, ser atendido assim que comunica uma necessidade.

Obrigada mãe, por teres sido persistente e me teres dado um presente, que retribuí de igual modo às minhas filhas e sei que se irá perpetuar nas nossas vidas, e quem sabe, nas gerações vindouras. E por nunca teres posto em causa a minha escolha, tão legítima, mas sejamos sinceros, tão nobre, e tão bonito como é o ato de amamentar.

 

Ana Luísa Bárbara
Mãe • Fundadora da Braga Materna • Conselheira em Aleitamento Materno • Assessora de Lactação • Doula

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