Um colo adiado

No dia 22 de outubro ligaram-me do hospital antecipando a hora da ecografia para as 16h30. Liguei ao João que não atendia, estava em reunião. Não pude esperar e como estava na casa da minha mãe com a minha filha mais velha, fomos as três. Acho que estava descontraída enquanto aguardava que me chamassem.

Entramos as três, a Eduarda sentou-se perto da minha cabeça. Desta vez a Obstetra magoou-me com a força que fazia na minha barriga. Ficou algum tempo sem proferir uma única palavra. Eu olhava o meu bebé no ecrã, até que me ocorreu dizer "o bebé está a dormir?", e do outro lado... "Não, o bebé não tem batimentos cardíacos". E foi este o momento em que o meu chão desabou e eu fiquei a flutuar. Não vou descrever os detalhes do que se seguiram, mas foi cruel. Duma crueldade que não deveria ser possível dotar o ser humano.
 
Saí em lágrimas e senti necessidade de me sentar com a Eduarda uns minutos e descrever a minha versão do que aconteceu. Expliquei-lhe que o coração do bebé que eu tinha na barriga tinha parado de palpitar e então o bebé ia sair da barriga para um sítio longe. Teci mais algumas palavras mas a explicação foi breve, a Eduarda ouviu atenta e absorveu assim a perda do m​​eu bebé sem o peso e a dimensão deste património que agora eu carregava. No final, esboçou um sorriso reconfortante e permaneceu ao meu lado.
Só dois dias depois me desloquei ao Hospital para ficar internada. Quis antes disso conversar com a Patrícia Capela, que carinhosamente adotei como minha enfermeira parteira, foi ela que me explicou o protocolo, e mais do que isso me deu conforto e carinho naquele momento frágil.
 
Estava grávida de três meses e a nossa escolha para o nascimento do bebé era o Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, pelo que foi lá que nos dirigimos.
Instalaram-nos numa sala de partos e tal como num trabalho de parto, aguardamos o momento da expulsão. Umas horas depois senti perfeitamente o bebé a sair, sem esforço. Lembro-me de começar a chorar e não querer que o João chamasse as enfermeiras. Coincidiu com a altura em que passaram no nosso quarto e aperceberam-se... penso que me quiseram tranquilizar e disseram logo que podia ver o bebé se quisesse. E eu quis assim como o João. Era o nosso bebé. Numa forma diferente da que o devíamos ter conhecido. Mas não deixava de ser nosso. Fizeram a recolha e foi para autópsia - durante a próxima semana iremos a uma consulta para receber o relatório, o mais certo é que não seja conclusivo.
Nessa mesma noite depois de ser vista e de conversar com o Obstetra assinei um termo de responsabilidade e fomos para casa. Não queria estar sozinha. Como queria descansar dentro do que fosse possível, estava ainda a decorrer a expulsão de alguns tecidos e eu estava também a integrar o que me tinha acontecido, fui para casa da minha mãe onde fiquei a dormir com a Eduarda. A Julieta ainda mamava de noite e para mim era melhor que eu pudesse descansar.
 
Cada mulher tem o seu tempo para se reestruturar e gradualmente voltar à sua rotina, agora sem o bebé que a iria acompanhar mais uns meses na barriga. Volta-se sozinha. Para mim, principalmente depois das meninas regressarem à creche não foi fácil, acho que até foi quando doeu mais. Mas foram também as minhas filhas que me resgataram daquela angústia. Permiti-me chorar e sentir saudades, mas permiti-me aceitar o que me aconteceu e continuar inteira para as minhas filhas e para a vida que neste último ano me mostrou que pode ser tão fugaz. Aceitei o desencontro com o meu bebé, falei e partilhei com algumas pessoas chegadas e também com quem me acompanha através da Braga Materna, foi assim que fui integrando e retomando a nova realidade.
 
Nunca senti vergonha nem incapaz. Não posso mentir que vivo com algum medo de numa próxima gravidez voltar a passar pelo mesmo... Aquele momento em que eu esperava que a Obstetra me dissesse está tudo bem com o seu bebé não aconteceu. E tenho medo de um dia voltar a entrar naquela sala escura e ver outra vez no ecrã um bebé "adormecido".
 
(...) Entretanto fomos receber o relatório da autópsia.
 
Era um menino.
 
 
Ana Luísa Bárbara
Mãe • Fundadora da Braga Materna • Conselheira em Aleitamento Materno • Assessora de Lactação • Doula

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