Porque metade é amor, e a outra metade é trabalho

​​Em 2015 tirei a certificação de CAM pela OMS/UNICEF, em 2016 o Curso de Massagem Infantil pela APMI, em 2017 a certificação de Doula e em 2018 de Assessora de Lactação, pelo meio ainda fiz um workshop sobre Relactação e Supressão de Suplemento e outro sobre a Osteopatia Pediátrica na Amamentação. Antes disso trabalhei cerca de seis anos na minha área de formação académica, Sistemas de Informação, em Lisboa, e foi depois de ser mãe que decidi mudar o meu rumo profissional.
Entretanto fui mãe pela segunda vez e agora estou novamente grávida. Dedico-me em exclusivo à Braga Materna, mas confesso que não tem sido fácil vingar nesta área, sinto que ainda é necessário desconstruir muitos mitos junto das famílias, e acima de tudo, resgatar a confiança e o instinto que nós mães temos e que nos é intrínseco.
Um dos maiores desafios que encontro na minha prática é a falta de apoio e o seguimento por parte dos profissionais de saúde, principalmente quando encaminho para alguma especialidade porque é necessário um diagnóstico médico e por vezes, um tratamento complementar. Já me aconteceu encaminhar mães a quem lhes foram negados cuidados médicos e uma outra situação em que o profissional confirmou o diagnóstico que sinalizei, mas não iniciou o tratamento, protelando quatro meses (impensável aguardar esse período quando se podia iniciar o tratamento de imediato).
São muitas as vezes que me sinto impotente. Toda eu respiro amamentação, mas nem sempre sinto que isso chega. Tenho que agradecer às famílias que genuinamente confiam em mim e que compreendem e valorizam o meu trabalho.
Fui voluntária ainda que por pouco tempo numa linha de apoio à amamentação. Não estou arrependida de ter integrado esta linha de apoio, mas ao fim de algum tempo comecei a sentir que o meu trabalho e o tempo que dedicava a apoiar mães era completamente desvalorizado - a maioria das mães ligavam por ser um apoio gratuito mas sentia que faltava consideração pelo trabalho e dedicação das voluntárias. Teria bem mais trabalho se o continuasse a fazer desta forma. Mas do outro lado da linha ninguém quer saber se estamos no nosso horário das refeições, se estamos a trabalhar (ninguém se dedica a apoiar mães em exclusivo de forma gratuita!), se estamos em família no almoço de Páscoa (ligaram-me às 13h no dia de Páscoa), se é de noite e estamos a adormecer os nossos filhos. As pessoas ligam e esperam que estejamos disponíveis, ponto.
Por causa da Braga Materna e porque me queria dedicar às famílias em exclusivo (não é exequível ter um outro trabalho e fazer disto algo complementar, como seria ter um patrão e a qualquer momento ter de o informar que tenho de sair para acompanhar um parto, não sabendo quando volto...), deixou de ser compatível integrar a linha de apoio à amamentação, pelo que decidi sair.
A verdade é que é diferente trabalhar com quem sabe que está a contratar um serviço formal, presencial, com determinada duração. Muitos bebés chegam a mim ainda com dias, o mais pequeno que acompanhei em consulta tinha quatro dias!
Por outro lado, por vezes só sou chamada em último recurso, quando já recorreram a outros profissionais e a ajuda não foi a que esperavam ou não estava a resultar. Às vezes é uma missão impossível o que esperam de mim. Principalmente quando do outro lado a disponibilidade para acolher aquilo que digo está condicionada por expectativas irreais. Honestamente, não são muitos os casos assim, mas já me fizeram sentir vazia e inútil por mais soluções e alternativas que apresentasse, parecia que nada do que dizia era validado do outro lado. O meu perfil está no site, estão lá todas as minhas formações e tenho certificado de tudo. Com filhas pequenas e com um orçamento reduzido nem sempre é fácil realizar formações, mas a verdade é que desde que comecei tenho feito um esforço para realizar uma por ano. A certificação de Doula só foi possível porque pude levar a bebé comigo - tinha quatro meses, era amamentada em exclusivo e a formação durava o dia todo.
É um gosto poder de alguma forma contribuir para que a amamentação seja harmoniosa, simples. É um trabalho no qual eu dou o meu contributo como profissional e tento orientar as famílias naquilo que me parece ser essencial para harmonizar o processo, mas o trabalho efetivo é da família, não só da mãe e do bebé, esta dupla tem de ter apoio também do pai e da família próxima; libertar a mãe das tarefas para que esta se possa dedicar a estabelecer a amamentação, fazer refeições equilibradas, tomar um banho relaxado, descansar e manter-se enérgica.
Amamentar é desafiante, e são inúmeras as dificuldades que podem surgir e condicionar a amamentação, é essencial o casal estar informado, saber reconhecer os sinais de alerta e pedir apoio se a vontade for efetivamente amamentar. Outra coisa que é fundamental para que seja possível é a motivação e confiança da mãe, acreditar em si, no seu corpo, no seu leite, o melhor alimento que o seu corpo criou para o seu bebé.

E quando as mães confiam e acreditam, quase tudo é possível.

Ana Luísa Bárbara
Mãe • Fundadora da Braga Materna • Conselheira em Aleitamento Materno • Assessora de Lactação • Doula

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