A “moda” dos Planos de Parto e Nascimento

Tenho recebido através deste meu cantinho, alguns pedidos de ajuda (a maioria, de casais que nem sequer conheço) para a elaboração dos seus Planos de Parto.
Agradeço a forma como chegaram até mim e agradeço a confiança no meu trabalho (confiar em mim apenas pelo que escrevo nas redes sociais, coloca-me num patamar de responsabilidade, pouco confortável).
Como tal, deixo algumas mensagens/"informação" para todos aqueles a quem, o consentimento informado em Obstetrícia e desejos no nascimento, possam interessar.
O Plano de Parto é um documento pessoal, único e elaborado pelo próprio casal, onde, de antemão, este, apresenta informações claras e precisas relativamente às opções que gostaria de ter e intervenções que gostaria de evitar. Ora o que faz sentido para uma grávida/casal e para a sua experiência de parto, poderá não fazer qualquer sentido para outro. Por isso, sou tão aversa a existir um documento protótipo para todos os casais, no hospital/maternidade.
Não defendo esta prática (apesar de a perceber) e não promovo este tipo de documento.
Conheço bem, um hospital que tem um documento único implementado, que denominam de "Plano de Parto", mas, porque discuti e assinei esse documento na minha/nossa Consulta de Plano de Parto, estou plenamente à vontade, para vos dizer que, aquele documento, apesar do nome, é nada mais, nada menos, que um COMPROMISSO escrito, daquele serviço e de toda a sua equipa, quanto ao que, de protocolos ou rotinas se aplica nos nascimentos, naquele local.
E, a comprovar o que pretende aquela equipa, é a realidade implementada há anos de, em ambiente de consulta multidisciplinar (EESMO/Parteira e Obstetra) o casal apresentar o seus desejos para o nascimento de seu filho e perante as rotinas/protocolos instituídos plasmados no documento hospitalar "Plano de Parto", se pronunciar sobre as mesmas, ficando registado e assinado pelos intervenientes tudo o que não é ou será consentido no dia (RELEMBRO QUE, qualquer decisão previamente acordada pode ser revogada pelo casal "no dia e na hora").
Sei igualmente, que outros hospitais estão a caminhar para a implementação do "Plano de Parto hospitalar" o que, independentemente das razões que os levaram a tal, digamos... me deixa apreensiva.
Uns querem fazer acreditar que "não é preciso escrever nada no papel" porque na hora basta dizer de "boca" o que desejam...
Outros apregoam aos "7 ventos", que têm Plano de Parto, mas na realidade quando o casal aborda o tema nas "consultas de termo" com a equipa, é-lhes dito, que "não estão a aceitar"...
Outros apregoam que aceitam todos os Planos de Parto que os casais apresentem NO dia...
Outros implementaram um documento tipo, que é distribuído indiscriminadamente pelas grávidas/casais...
Perante o que tenho presenciado, questiono (entre muitas outras coisas)... Onde fica nisto tudo, o compromisso assumido pela equipa de profissionais? Na "boa vontade"? Nas "palavras soltas"? Ou na dependência de quem nos calha no dia? Onde fica a informação que deve ser prestada antes de consentirmos qualquer intervenção em saúde?

Enfim... uma "salgalhada" que me parece, tudo, menos um consentimento informado, que é o que deveria ser.
O Plano de parto é uma declaração expressa escrita do casal, depois da obtenção de informação isenta e fidedigna.
Um compromisso que deve ser assumido de forma honesta e limpa por TODA a equipa de saúde onde acontecerá o nascimento.
Para MIM, esta forma leviana de tratar do Plano de Parto e Nascimento dos casais, é mais uma forma de ocultar as tão enraizadas, relações de poder e desigualdades de género, no atendimento ao parto hospitalar.
URGE resgatar e reconhecer a SINGULARIDADE de cada mulher e cada parto e restituir às mulheres o PROTAGONISMO dos seus partos e o PODER sobre os seus corpos... não urge implementar de forma, diria até irresponsável, um Plano de Parto hospitalar a todo custo e publicidade.

Por isso, em mensagem privada ou pública a minha orientação é...
- Façam o longo (mas prazeroso e empoderador) caminho, até à elaboração do vosso Plano de Parto, que na prática significa, procurem informação fidedigna, cerquem-se de pessoas e/ou profissionais que não vos condicionem mas sim, empoderem.
- Redijam, o vosso Plano de Parto e Nascimento. Coloquem o que querem e o que não querem, por escrito. O Plano de Parto pode ser uma salvaguarda para a mulher que, num momento de fragilidade, não consegue manifestar claramente as suas preferências.
- Apresentem o vosso Plano de Parto a várias instituições. Tirem as vossas conclusões perante o que ouvirem do outro lado. Se estiverem atentos, irão perceber a falácia de alguns discursos e filosofias.
- Não se fiem e duvidem das boas intenções de quem vos apresenta o discurso de, "no dia discutimos o seu Plano", "basta falar, não precisa escrever", ou "não aceitamos isso" (destes últimos fujam mesmo, porque vos garanto que nem tão pouco sabem o que é um consentimento informado, o que por si só já é muito grave, quando falamos de cuidados de saúde).

Por fim e mesmo para aqueles locais, cujo, já exista um documento tipo pré elaborado, apresentem o VOSSO Plano de Parto, o tal... pessoal, único e singular. E... discutam-no com as equipas!
Assumam a vossa responsabilidade! E os vossos direitos!

 

 

Documentos úteis

Consentimento informado em Obstetrícia

Curso de Preparação para o Nascimento

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